
Em 19 de outubro, o Papa Leão XIV declarou santos o Dr. José Gregorio Hernández e a Madre Carmen Elena Rendiles em uma missa multitudinária celebrada na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Madre Carmen Rendiles Martínez, fundadora da Congregação das Servas de Jesus na Venezuela e terceira beata do país, nos ensina com seu exemplo de vida como superar as adversidades e permanecer perto do amor de Deus.
Ela nasceu em Caracas em 11 de agosto de 1903. Era a terceira de nove irmãos em uma família com tradição religiosa arraigada, na qual lhe incutiram o senso do dever e o amor ao próximo.
Apesar de ter nascido sem o braço esquerdo, Madre Carmen cresceu entre seus irmãos com independência e espírito de liderança, o que ajudou todos os membros de sua família a superar com bom ânimo o obstáculo que nunca impediu Madre Carmen de se desenvolver e se destacar em sua vida familiar e social.
Com apenas quinze anos, ela já expressava um profundo desejo de dedicar sua vida a Deus. Uma doença pulmonar durante a adolescência afastou-a por alguns meses da vida social para recuperar a saúde e dedicar-se à oração. Foi então que sua vocação se manifestou com maior clareza e ela começou a desenvolver-se na vida cristã como catequista e fonte de apostolado para seus familiares e amigos.
Em 25 de fevereiro de 1927, aos 24 anos e depois de visitar vários conventos, ela bateu às portas da Congregação das Servas de Jesus no Santíssimo Sacramento em Caracas, uma instituição de origem francesa recém-chegada à Venezuela, cujas freiras não usavam hábito para satisfazer seus desejos de humildade e pobreza. Lá, o Senhor a esperava e lhe mostrou claramente o caminho.
Naquele mesmo ano, em 8 de setembro, Madre Carmen ingressou no noviciado da Congregação, após concluir seus estudos e a preparação prévia. Em 8 de setembro de 1932, ela emitiu os votos perpétuos que a tornaram, desde então, membro definitivo dessa família religiosa.
Ela desempenhou sua vida religiosa com a naturalidade, a liderança e a caridade que a caracterizavam desde pequena. Suas irmãs religiosas afirmam que ela era uma fonte de alegria dentro da Congregação, deixando uma marca indelével em todas as que puderam compartilhar ao seu lado.
“Era uma pessoa extremamente piedosa, que se mantinha próxima de cada uma de nós como mais uma irmã. Ela nos ensinou a amar Jesus na Eucaristia e a permanecer sempre em oração”, afirma a irmã Teresita Hurtado, que se lmbra dela com muito carinho.
Com apenas 33 anos, Madre Carmen foi nomeada mestra de noviças e, em 1947, foi nomeada superiora da Casa Mãe na Venezuela.
Sob sua liderança, as obras da instituição se expandiram em vários estados do país, sempre focadas no serviço ao próximo.
A partir de 1942, a Congregação iniciou seu trabalho educacional, fundando as escolas Betânia, Santa Ana, Belém e Nossa Senhora do Rosário. No serviço que prestavam a várias paróquias, também contribuíam com a confecção de hóstias e ornamentos litúrgicos.
Entre suas virtudes, destacava-se a pobreza. Suas irmãs religiosas lembram como ela viveu essa virtude sem que se tornasse um fardo, mas aproveitando-a para seguir o exemplo de Jesus.
A simplicidade com que vivia a levou a construir várias peças de mobiliário que a Congregação utilizou na sede principal. Hoje, algumas dessas peças estão conservadas no museu localizado no Colégio Belén de Caracas, entre elas um armário e uma base para vasos de flores.
Como Superiora Provincial, Madre Carmen se opõe quando o governo geral da Congregação na França, após o Concílio Vaticano II, decide se estabelecer como instituto secular, fato que implicava uma transformação no carisma fundacional.
Com firmeza, a religiosa venezuelana consulta suas irmãs e o Episcopado venezuelano e, com o apoio especial de José Humberto Cardenal Quintero, inicia o processo de separação da comunidade francesa, que culminou em 1965 com a constituição de uma nova congregação religiosa que passaria a se chamar “Siervas de Jesús” (Servas de Jesus) na Venezuela.
Em 1969, ela foi nomeada Superiora Geral, cargo que desempenhou com autoridade, mas com muita caridade para com suas irmãs. Com o passar dos anos, Madre Carmen enriqueceu sua natureza humana, sempre confiante na graça de Deus, e conseguiu transmitir esse exemplo a todas as Servas de Jesus.
Em 9 de maio de 1977, pouco depois de completar 50 anos de vida religiosa, Madre Carmen faleceu em Caracas com odor de santidade.
Atualmente, o quarto que Madre Carmen ocupava na comunidade do Colégio Belén foi transformado em oratório, onde diariamente as irmãs se dedicam à adoração do Santíssimo Sacramento. O processo de beatificação de Madre Carmen foi iniciado em Caracas em 9 de março de 1995.
Dezoito anos depois, em 5 de julho de 2013, o Papa Francisco a declarou Venerável da Igreja, reconhecendo que ela exerceu as virtudes cristãs em grau heróico. Foi somente em 18 de dezembro de 2017 que a Santa Sé aprovou um milagre ocorrido por intercessão de Madre Carmen, que curou o braço da médica venezuelana Trinette Durán de Branger, permitindo que ela se tornasse a terceira beata da Venezuela.
Madre Carmen foi elevada aos altares como terceira Beata da Venezuela e primeira de Caracas em 16 de junho de 2018, em cerimônia celebrada no Estádio Universitário de Caracas, presidida pelo enviado do Papa Francisco, o cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.